O álbum

Por António Loja Neves

Em 1997 eu escrevia, no semanário Expresso, de Lisboa, que este CD então editado pelo Alcides era “a confirmação de três coisas, qual delas a mais importante. Primeiro, que o critério da estrutura da obra é de uma seriedade que começa(va) a rarear por aquelas paragens, misturando com saber e de forma contida os trechos de origem popular, os de compositores que hoje são já clássicos e os de novos autores com muito futuro. Segundo, porque o trabalho de orquestração e arranjos, a cargo de Paulino Vieira, confirma o músico nos seus melhores momentos, atingindo o auge na forma como soube caracterizar, não lhes recusando novas roupagens, títulos populares que são ‘sagrados’ e que ele respeitou dando-lhes ainda mais dimensão. Terceiro, porque há uma voz nova que se instala de pleno direito num lugar cimeiro entre os grandes intérpretes da sua terra.”

Antes, mesmo ao iniciar o artigo, tinha um desabafo quase íntimo, acerca de um dos quatro ou cinco temas da música que mais amo em crioulo: “À primeira peça leva-se logo um murro no estômago; a quem não tem conhecimento profundo da música cabo-verdiana, porque a sonoridade de ‘Nhô Manel Pur Nol’ é aqui levada a um extremo de perfeição inesperada; a quem conhece o título de outras interpretações (…), porque esta está furos acima das melhores e traz a nostalgia de momentos fundamentais do percurso da estupenda música das ilhas crioulas.”

O Alcides estava acompanhado de grandes músicos, desde logo o Paulino Vieira, mas também o Cau Paris na bateria, o Nandinho nos sopros, o insuperável Armando Tito na viola. Mas, sem qualquer desprimor para este quarteto portentoso, o que espantava na audição daquele trabalho era a voz incrível daquele autêntico e valoroso crooner. Não havia margem para dúvidas: doravante ele seria ‘a voz’, a grande voz masculina das sonoridades cabo-verdianas. E “Pensamento”, o trabalho que ora temos o prazer de revisitar reposto a público, uma obra intransponível na riquíssima história da música do seu país. Não há volta a dar a esta constatação, a não ser que queiramos ser injustos ou, pior, trapaceiros ou invejosos.

Mas também não há volta a dar às voltas do ‘destino’. Quis a malapata da vida pregar uma partida má e traiçoeira ao Alcides, uma partida reles a todos nós. Por contingências de saúde, este será o seu único trabalho. Mas é tão grande que será sempre ouvido; é intemporal e merece permanecer a tocar sem parar onde pare alguém com atenção para as grandes vozes e os excelentes trabalhos, sérios e apaixonados, como este foi concebido.

As doenças, mesmo raras, inesperadas e injustas, não quebram pessoas como o Alcides. Não canta mais? Está 100% surdo? Mas deu um contributo único para a cultura musical de Cabo Verde. Nós agradecemos e estamos com ele, a ouvi-lo sempre. E a dar-lhe o abraço forte de companheiros e camaradas ao compincha das artes da música, das noitadas e das boas palavras trocadas que se recordam e guardam.

Obrigado, Alcides!